Falar até que o nó se desfaça: por que algumas dores precisam de escuta e não de conselhos?
- Ana Elisa Gonçalves Bortolin
- 7 de jun.
- 4 min de leitura
Existem sofrimentos que parecem não passar, mesmo quando o tempo avança. Algumas experiências ficam para trás, mas seus efeitos continuam presentes. A pessoa segue trabalhando, cuidando da família, cumprindo suas responsabilidades e mantendo a rotina. Ainda assim, algo insiste em retornar.
Pode ser uma angústia difícil de explicar, um sintoma físico sem causa aparente, um padrão repetitivo nos relacionamentos ou uma sensação constante de vazio. Muitas vezes, o sujeito não compreende exatamente por que continua sofrendo. Ele sabe que algo o incomoda, mas não consegue nomear com clareza aquilo que sente.
A psicanálise parte justamente dessa constatação: nem todo sofrimento está apenas nos acontecimentos vividos. Frequentemente, ele está ligado à forma como essas experiências foram inscritas, ou não, na vida psíquica.
O que não é elaborado não desaparece
Vivemos em uma cultura que frequentemente valoriza a superação rápida. Escutamos frases como “siga em frente”, “esqueça o passado” ou “não pense mais nisso”. Embora possam ser bem-intencionadas, essas orientações nem sempre correspondem ao funcionamento do psiquismo humano.
Sigmund Freud observou que aquilo que foi reprimido não desaparece simplesmente porque desejamos esquecê-lo. Pelo contrário, continua produzindo efeitos na vida psíquica.
Uma experiência dolorosa, um conflito emocional, uma perda ou um trauma podem não encontrar recursos suficientes para serem elaborados no momento em que acontecem. Quando isso ocorre, a experiência não deixa de existir. Ela permanece ativa de forma inconsciente.
Por isso, muitas vezes, o sofrimento retorna de maneiras inesperadas. Ele pode aparecer nos sonhos, nos sintomas, nos lapsos de linguagem, nos conflitos recorrentes ou em comportamentos repetitivos que parecem escapar ao controle consciente.
Freud descreveu esse fenômeno ao afirmar que aquilo que não é lembrado tende a ser repetido.
A repetição como linguagem do inconsciente
Quantas vezes uma pessoa diz:
“Eu sempre me envolvo com pessoas parecidas.”
“Sempre acontece a mesma coisa comigo.”
“Não sei por que repito esse comportamento.”
Essas repetições não são meras coincidências. Para a psicanálise, elas podem revelar algo da dinâmica inconsciente do sujeito.
Freud percebeu que existe uma tendência humana a repetir determinadas experiências, mesmo quando elas produzem sofrimento. Essa repetição não ocorre porque a pessoa deseja sofrer, mas porque existe algo que ainda não foi suficientemente elaborado.
O inconsciente tenta, de diferentes formas, retornar àquilo que permanece em aberto.
Por isso, a repetição não deve ser vista apenas como um erro ou uma falha. Muitas vezes, ela funciona como uma tentativa inconsciente de dar um destino psíquico a algo que ainda não encontrou lugar.
Lacan e a importância da linguagem
Se Freud descobriu a existência do inconsciente, Jacques Lacan aprofundou essa compreensão ao destacar a importância da linguagem.
Para Lacan, o inconsciente não é um depósito de lembranças escondidas. Ele se manifesta através da linguagem. Está presente nos sonhos, nos lapsos, nos sintomas, nos atos falhos e nas escolhas aparentemente sem explicação.
Quando alguém fala livremente sobre sua história, algo mais é dito além daquilo que foi planejado conscientemente.
Palavras se repetem.
Expressões surgem inesperadamente.
Contradições aparecem.
Silêncios ganham significado.
É justamente nesse espaço que a escuta psicanalítica opera.
A fala não é importante apenas porque comunica informações. Ela é importante porque permite que o sujeito entre em contato com aspectos de si mesmo que permaneciam desconhecidos.
Por que falar pode produzir mudanças?
Muitas pessoas chegam ao consultório acreditando que a análise consiste em receber orientações ou conselhos sobre como resolver seus problemas.
No entanto, a proposta da psicanálise é diferente.
O objetivo não é oferecer respostas prontas. O trabalho consiste em criar condições para que o próprio sujeito possa escutar algo novo sobre si mesmo.
Ao falar, a pessoa começa a organizar experiências que antes estavam dispersas. Emoções ganham nome. Conflitos tornam-se mais claros. Certas repetições passam a fazer sentido.
Isso não significa que a palavra tenha o poder de apagar a dor.
A perda continua sendo perda.
A ausência continua sendo ausência.
O trauma não desaparece como se nunca tivesse existido.
Entretanto, quando uma experiência pode ser simbolizada, o sujeito modifica sua relação com ela.
Aquilo que antes aparecia apenas como sofrimento sem nome pode começar a ser pensado, compreendido e elaborado.
A escuta como espaço de transformação
Vivemos cercados de opiniões, orientações e soluções rápidas. Sempre há alguém disposto a dizer o que devemos fazer.
Entretanto, nem todo sofrimento precisa de uma resposta imediata.
Muitas vezes, o que falta não é um conselho.
O que falta é um espaço de escuta.
A clínica psicanalítica oferece justamente esse espaço. Um lugar onde o sujeito pode falar sem a obrigação de apresentar uma narrativa perfeita, sem a necessidade de justificar seus sentimentos e sem o risco de ser reduzido a um diagnóstico ou a uma explicação simplista.
A escuta analítica permite que aquilo que estava silenciado encontre expressão.
E, quando isso acontece, algo pode começar a se transformar.
Considerações finais
A psicanálise nos ensina que o sofrimento humano nem sempre está apenas nos fatos vividos, mas também naquilo que permanece sem elaboração.
O que é reprimido não desaparece.
O que não encontra palavras pode retornar através dos sintomas, da angústia e das repetições.
Por isso, falar não é apenas contar uma história.
Falar é produzir sentidos.
É abrir espaço para que experiências antes confusas possam ser simbolizadas.
Nem sempre a palavra elimina a dor.
Mas ela pode modificar profundamente a posição do sujeito diante dela.
E, muitas vezes, essa mudança é o início de um novo modo de viver.
Porque existem dores que não precisam de conselhos.
Precisam de escuta.
Referências bibliográficas
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