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Por que engolir emoções adoece? Uma leitura psicanalítica sobre o sofrimento que o corpo não consegue esconder

Foto do escritor: Ana Elisa Gonçalves Bortolin
Ana Elisa Gonçalves Bortolin
10 de ago.
12 min de leitura

Por Ana Bortolin – Psicanalista | Especialista em Psicanálise e Saúde Mental


“As emoções não desaparecem quando são silenciadas. Elas apenas procuram outra forma de existir.”


Vivemos em uma sociedade que valoriza o desempenho, a produtividade e o autocontrole. Desde a infância, aprendemos que algumas emoções são aceitáveis, enquanto outras devem ser escondidas. Choramos e logo ouvimos que precisamos ser fortes. Demonstramos medo e somos incentivados a enfrentá-lo sozinhos. Expressamos tristeza e rapidamente alguém tenta nos convencer de que “isso vai passar”.


Pouco a pouco, muitas pessoas deixam de reconhecer aquilo que sentem. Não porque deixaram de sofrer, mas porque aprenderam que demonstrar sofrimento pode ser interpretado como sinal de fraqueza.


Essa adaptação, embora muitas vezes necessária para sobreviver a determinados contextos familiares e sociais, possui um custo psíquico elevado.


A psicanálise nasceu justamente da escuta desse sofrimento silencioso. Quando Sigmund Freud começou a atender pacientes no final do século XIX, percebeu que muitos sintomas físicos não podiam ser explicados apenas pela medicina da época. Havia dores, paralisias, desmaios e alterações corporais que pareciam carregar uma história emocional ainda não elaborada.


Foi a partir dessa observação que surgiu uma das perguntas mais importantes da psicanálise:


O que acontece com aquilo que sentimos, mas não conseguimos viver, compreender ou colocar em palavras?


Mais de um século depois, essa pergunta continua extremamente atual.


Embora a medicina contemporânea tenha avançado enormemente na compreensão das doenças, permanece evidente que mente e corpo não funcionam como sistemas independentes. Nossa vida emocional influencia o funcionamento do organismo, assim como o organismo influencia nossa vida psíquica.


Entretanto, compreender essa relação exige cuidado.


A psicanálise não afirma que todas as doenças sejam causadas por conflitos emocionais, nem reduz o sofrimento físico a uma questão exclusivamente psicológica. Fazer essa afirmação seria ignorar décadas de conhecimento produzido pela genética, pela imunologia, pela endocrinologia e por diversas outras áreas da medicina.


O que a psicanálise propõe é algo mais profundo.


Ela convida a compreender que o ser humano não sofre apenas através daquilo que consegue dizer. Muitas vezes, sofre também através daquilo que permaneceu sem representação psíquica.


É nesse ponto que começa nossa reflexão.


A alma que cala, o corpo que fala


Existe uma frase bastante conhecida que afirma que “o corpo fala”.


Embora essa expressão não pertença originalmente à teoria freudiana, ela sintetiza uma percepção clínica importante: quando determinados afetos não encontram espaço para serem simbolizados, o sofrimento pode buscar outras formas de expressão.


Rir e chorar são muito mais do que simples reações emocionais.


São manifestações naturais de um aparelho psíquico que tenta elaborar experiências internas.


Quando alguém consegue sentir, nomear e compartilhar aquilo que vive, existe maior possibilidade de integração emocional. A experiência deixa de ser apenas uma descarga afetiva e passa a fazer parte da própria história.


O problema surge quando esse percurso é interrompido.


Existem pessoas que passaram toda a infância ouvindo frases como:


“Engole esse choro.”


“Pare de fazer drama.”


“Você precisa ser forte.”


“Sentir raiva é feio.”


“Não incomode ninguém com seus problemas.”


Com o passar dos anos, muitas deixam de acreditar que possuem o direito de sentir.


Continuam funcionando.


Trabalham.


Sorriem.


Cuidam dos filhos.


Produzem.


Aparentemente, seguem suas vidas normalmente.


Mas, internamente, carregam uma quantidade crescente de experiências emocionais que jamais puderam ser reconhecidas.


Na clínica psicanalítica, frequentemente encontramos pacientes que dizem:


“Não sei explicar o que tenho.”


“Minha vida está boa, mas continuo sentindo um vazio.”


“Nada aconteceu recentemente, mas estou angustiado o tempo todo.”


Esses relatos mostram que o sofrimento psíquico nem sempre aparece ligado a um acontecimento presente. Muitas vezes, ele representa experiências antigas que nunca encontraram condições suficientes para serem elaboradas.


Freud percebeu exatamente isso.


O inconsciente não funciona como um depósito de lembranças esquecidas.


Ele permanece ativo.


Aquilo que foi reprimido continua produzindo efeitos.


Quando a emoção não desaparece


Uma das maiores contribuições de Freud foi demonstrar que esquecer não significa resolver.


Ao desenvolver o conceito de recalque, ele mostrou que determinadas experiências emocionais podem ser afastadas da consciência sem deixarem de existir.


O conteúdo reprimido permanece no inconsciente, buscando continuamente novas formas de expressão.


Essa compreensão revolucionou a maneira de entender o sofrimento humano.


Até então, acreditava-se que lembrar ou esquecer fossem processos essencialmente voluntários.


Freud mostrou que existem forças psíquicas inconscientes organizando nossa vida muito além daquilo que imaginamos controlar.


É justamente por isso que certos conflitos reaparecem repetidamente.


Às vezes através da ansiedade.


Outras vezes por meio de sonhos recorrentes.


Em alguns casos, manifestam-se em sintomas obsessivos, medos aparentemente irracionais, crises de angústia ou dificuldades persistentes nos relacionamentos.


O sintoma, na perspectiva psicanalítica, não é um erro do funcionamento mental.


Ele representa uma tentativa de solução encontrada pelo psiquismo para lidar com um conflito que ainda não pôde ser elaborado.


Por trás de muitos sintomas existe uma história que ainda não encontrou palavras.


Freud escreveu que o afeto desligado de sua representação procura novos destinos.


Essa ideia permanece extremamente atual.


Aquilo que não pôde ser pensado continua procurando uma forma de existir.


E, enquanto não encontra simbolização suficiente, continua produzindo sofrimento.


Por que algumas pessoas aprendem a esconder tudo o que sentem?


Ninguém nasce reprimindo emoções.


Essa capacidade é construída ao longo do desenvolvimento.


Donald Winnicott observou que o amadurecimento emocional depende profundamente do ambiente em que a criança cresce.


Quando existe um ambiente suficientemente bom, os sentimentos podem ser reconhecidos, acolhidos e integrados gradualmente.


A criança aprende que sentir medo, tristeza, raiva ou frustração faz parte da experiência humana.


Mas nem todas crescem assim.


Em muitos contextos familiares, o amor torna-se condicionado ao comportamento.


A criança percebe que só recebe aprovação quando corresponde às expectativas dos adultos.


Para preservar o vínculo, passa a esconder partes importantes de si mesma.


A tristeza é silenciada.


A raiva torna-se culpa.


O medo transforma-se em autocobrança.


A espontaneidade dá lugar à adaptação.


Winnicott chamou esse funcionamento de Falso Self.


O indivíduo continua funcionando socialmente.


Entretanto, sente-se progressivamente distante de sua própria experiência emocional.


É como se passasse a viver muito mais para responder ao desejo do outro do que para reconhecer o próprio mundo interno.


Essa adaptação pode garantir sobrevivência psíquica durante a infância.


Mas, na vida adulta, frequentemente torna-se fonte de sofrimento.


Porque aquilo que nunca pôde existir continua buscando reconhecimento.


O corpo como palco do sofrimento psíquico


Uma das frases mais conhecidas quando se fala em emoções é: “o corpo fala”. Ela é frequentemente utilizada para explicar dores, doenças ou desconfortos físicos que parecem surgir sem uma causa evidente. Embora essa expressão tenha se popularizado, é importante compreender o que ela realmente significa à luz da psicanálise.


Freud nunca afirmou que toda doença física fosse produzida por conflitos emocionais. Essa é uma interpretação simplificada que não encontra respaldo em sua obra. O que ele observou foi que determinados conflitos inconscientes podem encontrar diferentes formas de expressão quando não conseguem ser simbolizados pela palavra.


Na clínica psicanalítica, o sintoma é entendido como uma formação do inconsciente. Ele representa uma tentativa de compromisso entre desejos, conflitos, defesas e experiências que não puderam ser plenamente elaboradas. Em alguns casos, essa manifestação ocorre por meio da ansiedade, dos sonhos, das fobias ou das compulsões. Em outros, pode haver repercussões sobre o funcionamento corporal, especialmente quando o sofrimento emocional permanece crônico e sem possibilidades de elaboração.


Isso não significa que o corpo “fale” literalmente. Significa que corpo e mente constituem uma unidade inseparável na experiência humana. Aquilo que afeta profundamente a vida psíquica também pode modificar o funcionamento do organismo por mecanismos biológicos conhecidos e amplamente estudados.


Essa distinção é fundamental para evitar reducionismos. Nem toda doença possui origem emocional. Da mesma forma, seria equivocado afirmar que as emoções não exercem nenhuma influência sobre o corpo.


O ser humano é uma unidade psicossomática.


A psicossomática: muito além do senso comum


Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar nas redes sociais afirmações como: “Toda doença tem origem emocional” ou “Basta resolver seus traumas para curar o corpo”. Embora essas ideias pareçam reconfortantes, elas simplificam excessivamente um fenômeno extremamente complexo.


A psicossomática, especialmente aquela desenvolvida pela Escola de Paris, jamais sustentou esse tipo de afirmação.


Pierre Marty, um dos principais representantes dessa corrente, dedicou décadas ao estudo da relação entre funcionamento psíquico e adoecimento físico. Sua proposta não consistia em procurar uma emoção específica para explicar cada doença. Ao contrário, Marty procurava compreender como determinadas formas de funcionamento mental poderiam reduzir a capacidade do indivíduo de elaborar conflitos emocionais.


Quando essa capacidade de simbolização se torna muito limitada, o aparelho psíquico passa a ter menos recursos para transformar emoções em pensamentos. Em algumas pessoas, esse empobrecimento da vida psíquica pode coexistir com determinadas manifestações somáticas.


Perceba a diferença.


Não é a emoção isoladamente que produz uma doença.


É a forma como o sujeito consegue, ou não, elaborar sua experiência emocional que pode influenciar diferentes aspectos de sua saúde.


Essa perspectiva continua sendo uma importante contribuição da psicossomática contemporânea e dialoga com diversas áreas da medicina sem substituir nenhuma delas.


Joyce McDougall e o sofrimento sem palavras


Outra autora fundamental para compreender essa relação é Joyce McDougall.


Em sua obra Teatros do Corpo, ela descreve situações em que determinadas pessoas apresentam enorme dificuldade para reconhecer aquilo que sentem. Não se trata de falta de inteligência ou de sensibilidade. Trata-se da impossibilidade de transformar determinadas experiências emocionais em representações psíquicas.


Quando isso acontece, o sofrimento permanece sem linguagem.


Segundo McDougall, algumas experiências traumáticas jamais chegaram a ser verdadeiramente simbolizadas. Permaneceram registradas muito mais como sensações corporais do que como lembranças organizadas em palavras.


Nesses casos, o corpo deixa de ser apenas um organismo biológico.


Ele também se torna um espaço onde experiências emocionais podem deixar marcas.


Essa compreensão não elimina a importância da medicina, dos exames ou dos tratamentos clínicos. Ela apenas amplia nosso olhar sobre a complexidade da experiência humana.


A psicanálise não procura substituir o diagnóstico médico.


Ela procura compreender o sujeito que adoece.


O que a neurociência descobriu sobre emoções e organismo


Embora utilizem linguagens diferentes, psicanálise e neurociência dialogam em diversos pontos.


Hoje sabemos que o estresse prolongado modifica profundamente o funcionamento do organismo.


Pesquisas conduzidas por Robert Sapolsky demonstraram que a ativação contínua do sistema de resposta ao estresse aumenta a liberação de cortisol e interfere em diversos sistemas fisiológicos.


Entre eles estão o sistema imunológico, o metabolismo, a qualidade do sono, a memória, os processos inflamatórios e o funcionamento cardiovascular.


Stephen Porges, por sua vez, mostrou através da Teoria Polivagal que nosso sistema nervoso responde continuamente à percepção de segurança ou ameaça presente no ambiente.


Quando uma pessoa permanece durante anos vivendo sob medo, violência, abandono ou tensão constante, seu organismo passa a funcionar em estado permanente de alerta.


Esse funcionamento pode produzir consequências importantes tanto para a saúde mental quanto para o corpo.


Essas descobertas não confirmam a ideia de que toda doença seja emocional.


Elas mostram algo mais sofisticado.


Mostram que experiências emocionais possuem repercussões biológicas mensuráveis.


A medicina contemporânea já reconhece essa interação em diversas áreas, como a psiconeuroimunologia, a psiquiatria, a endocrinologia e a medicina comportamental.


Nesse aspecto, a ciência aproxima-se daquilo que a clínica psicanalítica observa há mais de um século: o sofrimento emocional nunca permanece restrito apenas ao mundo interno.


Quando o silêncio se transforma em modo de vida


Existe uma diferença entre silenciar uma emoção momentaneamente e viver permanentemente afastado da própria vida emocional.


Todos nós, em determinados momentos, precisamos conter sentimentos para enfrentar situações difíceis. Um profissional de saúde durante uma emergência, por exemplo, frequentemente adia sua própria emoção para conseguir cuidar do paciente.


O problema surge quando esse adiamento se transforma em padrão de funcionamento.


Algumas pessoas passam décadas sem conseguir reconhecer tristeza, medo, frustração ou raiva.


Aprendem apenas a cumprir obrigações.


Funcionam de maneira impecável.


Produzem.


Resolvem problemas.


Cuidam de todos ao redor.


Mas já não sabem responder a uma pergunta aparentemente simples:


“Como você realmente está?”


Quando o contato consigo mesmo desaparece, a vida torna-se progressivamente mecânica.


É justamente nesse momento que muitos procuram ajuda psicológica.


Não porque tenham perdido a capacidade de funcionar.


Mas porque perderam a capacidade de sentir a própria existência.


A clínica psicanalítica mostra que o sofrimento nem sempre aparece como um grande trauma. Muitas vezes, ele se apresenta como um vazio silencioso, uma sensação persistente de que algo essencial ficou para trás.


Esse vazio não costuma ser preenchido por sucesso profissional, bens materiais ou reconhecimento social. Ele aponta para uma necessidade mais profunda: a de reencontrar a própria experiência subjetiva.


Bion: transformar emoção em pensamento


Wilfred Bion ampliou profundamente a compreensão psicanalítica sobre o funcionamento emocional. Para ele, um dos papéis fundamentais da mente é transformar experiências emocionais brutas em algo que possa ser pensado. Quando isso acontece, o sofrimento deixa de ser apenas uma vivência avassaladora e passa a integrar a história do sujeito.


Bion descreveu esse processo por meio do conceito de função alfa. Em termos simplificados, trata-se da capacidade de transformar experiências emocionais intensas, muitas vezes caóticas, em elementos que possam ser simbolizados, compreendidos e lembrados.


Quando essa transformação não ocorre, a emoção permanece como uma experiência sem representação psíquica. Em vez de ser pensada, ela é descarregada por diferentes caminhos. Algumas pessoas tornam-se impulsivas. Outras desenvolvem intensa ansiedade. Há aquelas que vivem em constante estado de alerta, sem conseguir compreender a origem do próprio sofrimento.


Essa perspectiva ajuda a entender por que simplesmente “desabafar” nem sempre resolve um conflito emocional. A elaboração psíquica exige algo mais profundo do que a descarga afetiva. Ela exige que a experiência encontre significado.


É justamente essa construção de sentido que a psicanálise busca favorecer.


Ao longo do processo analítico, o paciente começa a reconhecer emoções antes desconhecidas, identifica padrões que se repetem em sua história e encontra palavras para experiências que, durante muitos anos, permaneceram silenciosas.


O sofrimento não desaparece por mágica. O que muda é a relação que o sujeito estabelece com ele.


Aquilo que pode ser pensado deixa de aprisionar da mesma maneira.


A palavra como instrumento de transformação


Freud percebeu muito cedo que seus pacientes experimentavam mudanças importantes quando conseguiam narrar experiências que haviam permanecido recalcadas.


A fala, entretanto, não possui um efeito terapêutico simplesmente por existir.


Falar muito não significa elaborar.


Existem pessoas que contam repetidamente a mesma história durante anos sem que ocorra qualquer transformação subjetiva.


Na psicanálise, a palavra torna-se terapêutica quando permite que novos sentidos sejam construídos.


Isso acontece porque recordar não é o mesmo que elaborar.


Uma lembrança pode permanecer congelada durante décadas.


A elaboração ocorre quando essa experiência passa a ocupar um novo lugar na vida psíquica.


Por isso, o objetivo de uma análise não consiste em apagar o sofrimento.


Também não é ensinar o paciente a ser positivo.


Muito menos convencê-lo de que tudo ficará bem.


O trabalho analítico procura ampliar a capacidade de simbolização.


Quando isso acontece, aquilo que antes precisava retornar continuamente através dos sintomas pode, gradualmente, transformar-se em pensamento.


É essa possibilidade que torna a psicanálise um espaço singular de cuidado.


Espiritualidade e psicanálise: caminhos diferentes que podem dialogar


Sempre que se discute sofrimento emocional, surge uma pergunta importante: qual é o lugar da espiritualidade?


A resposta exige cuidado.


A psicanálise não confirma nem nega crenças religiosas. Seu interesse não é decidir se Deus existe ou não, mas compreender o significado que a experiência espiritual ocupa na vida de cada sujeito.


Freud foi crítico em relação à religião, compreendendo-a, em determinados contextos, como uma resposta humana ao desamparo existencial. Outros psicanalistas posteriores, porém, adotaram perspectivas mais abertas, reconhecendo que a espiritualidade pode exercer funções importantes na organização da subjetividade.


Para muitas pessoas, a fé oferece esperança, pertencimento, capacidade de enfrentar perdas e elaboração do sofrimento.


Quando vivida de maneira saudável, a espiritualidade pode fortalecer recursos internos importantes.


Entretanto, ela não substitui o trabalho psíquico.


Orar não elimina um trauma.


Acreditar em Deus não impede o luto.


A fé não torna alguém imune à ansiedade, à depressão ou aos conflitos inconscientes.


Da mesma forma, a psicanálise também não pretende substituir a dimensão espiritual da existência.


Cada uma ocupa um campo diferente.


A espiritualidade pode oferecer sentido.


A psicanálise procura compreender o sujeito que atribui esse sentido.


Quando ambas permanecem em seus respectivos campos, podem coexistir de maneira ética e respeitosa.


O silêncio emocional na sociedade contemporânea


Talvez nunca tenhamos falado tanto sobre saúde mental.


Ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil entrar em contato com a própria vida emocional.


Vivemos cercados por estímulos, informações e exigências de desempenho.


As redes sociais frequentemente apresentam versões idealizadas da felicidade.


O sofrimento passa a ser visto como um fracasso individual.


Muitas pessoas acreditam que precisam estar bem o tempo todo.


Quando isso não acontece, sentem culpa por sofrer.


Essa lógica produz um paradoxo.


Quanto maior a exigência de felicidade permanente, menor se torna o espaço para reconhecer emoções inevitáveis da condição humana.


Tristeza, medo, frustração, luto e angústia deixam de ser compreendidos como experiências naturais e passam a ser tratados como algo que precisa ser eliminado rapidamente.


A psicanálise propõe exatamente o contrário.


Ela reconhece que sofrer faz parte da existência.


O sofrimento torna-se destrutivo quando permanece sem escuta, sem elaboração e sem possibilidade de simbolização.


Não somos constituídos apenas por nossas alegrias.


Também somos formados pelas perdas que atravessamos, pelos vínculos que construímos, pelos traumas que sobrevivemos e pelos sentidos que atribuímos à nossa história.


Considerações finais


Voltemos à pergunta que inspirou este artigo.


O que cura mais: rir, chorar ou engolir tudo em silêncio?


Do ponto de vista psicanalítico, a resposta talvez seja outra.


Nem o riso, nem o choro possuem, por si mesmos, um poder curativo.


Eles são manifestações legítimas da vida emocional.


O verdadeiro processo de transformação acontece quando aquilo que sentimos pode ser reconhecido, simbolizado e integrado à nossa história.


Engolir emoções pode parecer uma estratégia de força.


Em muitos momentos da vida, talvez tenha sido a única forma possível de continuar seguindo.


Mas aquilo que foi silenciado não deixa de existir.


O inconsciente conserva marcas, conflitos e afetos que continuam produzindo efeitos muito além da consciência.


A boa notícia é que o sofrimento não precisa permanecer aprisionado.


Quando encontra um espaço de escuta, ele pode transformar-se.


A palavra não apaga o passado.


Ela modifica a relação que estabelecemos com ele.


Talvez seja justamente essa uma das maiores contribuições da psicanálise: oferecer um lugar onde aquilo que permaneceu silencioso possa, finalmente, adquirir voz.


E quando uma emoção encontra representação, deixa de precisar procurar outros caminhos para ser percebida.


Não porque o corpo deixe de sentir.


Mas porque o sujeito passa a reconhecer aquilo que antes permanecia apenas como sofrimento sem nome.


Referências bibliográficas


BION, Wilfred R. Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.


FREUD, Sigmund. Estudos sobre a Histeria (1893-1895). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago.


FREUD, Sigmund. O Recalque (1915). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras.


FREUD, Sigmund. Inibição, Sintoma e Ansiedade (1926). São Paulo: Companhia das Letras.


GREEN, André. O Discurso Vivo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.


MARTY, Pierre. A Psicossomática do Adulto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.


McDOUGALL, Joyce. Teatros do Corpo. São Paulo: Martins Fontes, 1996.


PORGES, Stephen W. A Teoria Polivagal: Fundamentos Neurofisiológicos das Emoções, do Apego, da Comunicação e da Autorregulação. Rio de Janeiro: Editora Senses, 2021.


SAPOLSKY, Robert M. Por Que as Zebras Não Têm Úlcera. São Paulo: Hucitec, 2010.


WINNICOTT, Donald W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

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