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Por que repetimos relacionamentos que nos fazem sofrer?

Foto do escritor: Ana Elisa Gonçalves Bortolin
Ana Elisa Gonçalves Bortolin
11 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 13 de ago.

“Desta vez será diferente.” A pessoa muda, a história parece começar de outra forma, mas, pouco a pouco, a mesma sensação reaparece: abandono, desconfiança, indisponibilidade, excesso de cobrança ou a impressão de nunca ser verdadeiramente escolhida.

Quando relações diferentes conduzem repetidamente a sofrimentos semelhantes, é natural perguntar: por que continuo vivendo isso?

A resposta não está em culpar quem sofre nem em afirmar que alguém “escolhe sofrer”. A psicanálise procura compreender como experiências, desejos e formas de vínculo podem atuar sem que estejam inteiramente disponíveis à consciência.

A sensação de escolher sempre o mesmo tipo de relação

Nem sempre os parceiros são parecidos de maneira evidente. Um pode ser expansivo e outro reservado. Um pode demonstrar afeto e outro parecer distante. Mesmo assim, a posição ocupada na relação pode se repetir.

Talvez a pessoa volte a esperar por alguém que nunca está completamente disponível. Talvez se esforce para provar que merece amor. Talvez tema tanto ser abandonada que passe a controlar a relação. Ou talvez se afaste sempre que a intimidade começa a se tornar possível.

O elemento repetido nem sempre está no outro. Pode estar na maneira como o vínculo é construído, na expectativa que o acompanha ou no lugar que cada um assume dentro da relação.

Compulsão à repetição e padrões inconscientes

Freud utilizou a expressão compulsão à repetição para pensar situações em que o sujeito revive algo sem perceber plenamente que está repetindo. Em vez de recordar e elaborar uma experiência, ela pode reaparecer na forma de escolhas, conflitos e modos de se relacionar.

Isso não significa que o passado determine completamente o futuro. Significa que aquilo que não pôde ser compreendido ou elaborado pode continuar buscando expressão.

Uma pessoa que aprendeu muito cedo que o afeto vinha acompanhado de incerteza pode estranhar relações mais estáveis. Outra, acostumada a precisar conquistar atenção, pode se sentir atraída por pessoas indisponíveis. Não porque deseje conscientemente sofrer, mas porque existe algo familiar naquela dinâmica.

Familiaridade não é o mesmo que segurança

O conhecido pode parecer seguro mesmo quando provoca sofrimento. Há situações que reconhecemos emocionalmente antes mesmo de compreendê-las.

Por isso, tranquilidade pode ser confundida com falta de interesse, enquanto instabilidade pode ser vivida como paixão. Esperar por uma mensagem, tentar adivinhar o desejo do outro ou viver entre aproximações e afastamentos pode produzir intensidade — e intensidade nem sempre é intimidade.

Reconhecer essa diferença é importante. Um vínculo não precisa reproduzir antigas inseguranças para ser significativo.

Perceber o padrão nem sempre basta para mudá-lo

Às vezes, a pessoa sabe exatamente o que está acontecendo. Diz a si mesma que não aceitará novamente determinada situação, mas, quando percebe, está vivendo algo semelhante.

Isso acontece porque uma repetição não é apenas uma ideia equivocada que pode ser corrigida por um conselho. Ela pode estar ligada a desejos contraditórios, medos, identificações, experiências de infância e formas de proteção construídas ao longo da vida.

Compreender intelectualmente é um passo, mas a elaboração exige tempo. É preciso observar como o padrão se forma, o que ele tenta preservar e quais angústias aparecem diante da possibilidade de agir de outra maneira.

Quando o outro ocupa sempre o mesmo lugar

Também é importante lembrar que uma relação é construída por mais de uma pessoa. A leitura psicanalítica não elimina a responsabilidade de quem mente, agride, manipula ou desrespeita limites.

Compreender a própria repetição não significa justificar o comportamento do outro. Significa ampliar a possibilidade de reconhecer situações nocivas, sustentar limites e perceber por que determinados vínculos permanecem mesmo quando trazem sofrimento.

Como a análise pode abrir espaço para novas escolhas

Na análise, a pergunta deixa de ser apenas “por que todas as pessoas fazem isso comigo?” e pode se transformar em outras:

  • O que me mantém nessa posição?

  • O que espero receber deste vínculo?

  • Por que certos sinais são ignorados no início?

  • O que sinto quando alguém se aproxima de maneira diferente?

  • Que ideia de amor está presente nas minhas escolhas?

Essas perguntas não servem para produzir culpa. Servem para devolver ao sujeito alguma participação na própria história — e, com ela, a possibilidade de construir respostas diferentes.

A mudança não consiste necessariamente em nunca mais sentir atração pelo familiar. Pode começar pela capacidade de reconhecer o movimento antes que ele se complete, suportar a estranheza de uma escolha nova e construir vínculos em que desejo, limite e reciprocidade possam coexistir.

Repetir não precisa ser um destino

Aquilo que se repete conta uma história. Quando essa história pode ser falada e escutada, a repetição deixa de ser apenas um acontecimento inevitável e pode se tornar material de elaboração.

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