O que significa dizer que uma boa interpretação é aquela que o paciente pode digerir?
- Ana Elisa Gonçalves Bortolin
- 24 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Na prática clínica da psicanálise, a escuta não se resume à formulação de interpretações brilhantes ou teoricamente corretas. A escuta que verdadeiramente transforma é aquela que respeita o tempo psíquico do outro. É nesse contexto que Wilfred Bion afirma:
“Uma boa interpretação é aquela que o paciente pode digerir.”
(BION, 1991)
Mas o que exatamente ele quis dizer com isso?
Bion utiliza a metáfora da digestão para se referir ao modo como o psiquismo lida com experiências emocionais intensas. Segundo o autor, existe uma função mental fundamental chamada função alfa, cuja tarefa é transformar elementos sensoriais e emocionais brutos (que ele chama de “elementos beta”) em pensamentos que possam ser processados. Quando essa função está fragilizada — por traumas, angústias extremas ou estruturas psíquicas em sofrimento — o sujeito não consegue pensar o que sente. Ele sofre, mas não consegue simbolizar sua dor.
Nesse ponto, entra o papel essencial do analista. Bion propõe que o terapeuta funcione, temporariamente, como um auxiliar da função alfa do paciente. Em outras palavras, o analista escuta o material emocional bruto, sustenta o impacto que ele carrega, metaboliza esse conteúdo dentro de si e, em um momento apropriado, devolve algo transformado em forma de interpretação. Mas essa devolução precisa ser suportável, acolhedora e oportuna. Precisa ser algo que o paciente possa digerir emocionalmente.
Uma interpretação pode estar correta do ponto de vista teórico, mas, se for feita no momento errado ou com tom inadequado, pode ser vivida como um ataque. Em vez de promover elaboração psíquica, pode gerar defesa, retraimento ou até mesmo rompimento do vínculo terapêutico. Por isso, Bion alerta que a boa interpretação não é aquela que revela algo novo, mas aquela que encontra o outro em seu tempo interno, oferecendo um espaço possível de elaboração.
Freud também já destacava a importância de se considerar o tempo psíquico e o manejo da transferência no processo interpretativo. Em seu texto “Observações sobre o amor transferencial”, ele afirma que o analista deve evitar interpretações precipitadas, que podem ser sentidas como invasivas e provocar resistência (FREUD, 1996). De modo semelhante, Winnicott reforça que o terapeuta deve oferecer um ambiente confiável e suficientemente bom, onde o sujeito possa se sentir seguro para simbolizar experiências difíceis, em vez de se defender contra elas (WINNICOTT, 1975).
Na prática clínica, isso significa estar presente com escuta atenta e afeto genuíno. Significa tolerar o silêncio, suportar o não saber, e reconhecer que nem sempre é hora de dizer. Às vezes, o melhor manejo é o cuidado de escutar profundamente e esperar o momento certo para que uma interpretação possa, de fato, ser recebida.
Um exemplo: imagine um paciente que relata, com aparente neutralidade, que se atrasou para a sessão após uma discussão com o companheiro. Um analista apressado poderia interpretar como um ato falho, uma resistência, ou até uma repetição de padrão inconsciente. No entanto, se o paciente ainda está emocionalmente tomado, essa fala pode ser vivida como julgamento. Uma escuta mais sensível, alinhada à ética do cuidado, talvez aguarde outro momento, ou diga algo como:
“Fico com a impressão de que essa discussão te afetou mais do que parece.”
Essa formulação é mais leve, menos invasiva, e abre espaço para que o paciente pense sobre o que está sentindo, em vez de se defender da fala do analista.
A boa interpretação, portanto, é aquela que encontra o paciente onde ele está, e não onde o analista gostaria que ele estivesse. É uma construção relacional, ética, afetiva e simbólica. Porque, no fim das contas, só pode transformar aquilo que, antes, pode ser sentido e acolhido.
Referências
BION, Wilfred. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
BION, Wilfred. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.





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